IC Encontro de Artes
“Imunidade” é uma proposta de criação colaborativa feita por Cândida Monte e Milla Jung a mulheres-artistas. O trabalho se configura como uma performance da voz e da presença, ativado como gesto artístico e político de resistência e de novos imaginários, em diferentes formatos expositivos e em diferentes locais.
A primeira versão do projeto nasceu na pandemia, diante do sombrio contexto político-social da Covid-19 no Brasil, a partir de uma série de depoimentos de mulheres sobre quais futuros poderiam ser imaginados e ditos. Inspirado no teórico literário suíço Paul Zumthor (1915-1995), para quem “dizer é agir”, o ponto de partida da reflexão é: o que a palavra pode colocar em movimento quando se fabulam mundos por virem? Cândida Monte, Milla Jung e outras 15 artistas então conceberam e executaram um jogral — um coro que se transforma e se remodela continuamente sobre o devir-futuro.
Interessa evidenciar as singularidades de vozes, que não vêm de corpos abstratos, mas de “gargantas de carne”. Vozes que carregam seus contextos, experiências e corporeidades, e que evocam o que não esteve nas letras escritas, mas que agora ressurge e encontra abertura na esfera pública. “Imunidade” abre potência pelo território vibrátil da voz e da escuta sensível para outros mundos e modos de existir. Disputando atuação e narrativas sobre o futuro, torna visíveis discursos historicamente silenciados por um sistema estruturado em violências originárias e na lógica do capital.
Nesta residência no IC Encontro de Artes, a proposta é escrever um novo texto colaborativo com novas mulheres-artistas-mães, agora da cena de Salvador, provocadas pelas questões sobre o cuidado que esta edição do festival levanta. A residência ocorrerá entre 20 e 25 de agosto, das 9h às 13h, na Casa Arte Dá Trabalho, com artistas convidadas.
Para esta experiência, o foco estará no cuidado como uma prática ética, política e econômica fundamental para a vida, mas historicamente invisibilizada e sobrecarregada sobre grupos vulneráveis. Ao tensionar afetos, obrigações de Estado, dinâmicas de poder e relações ecológicas, a reflexão convoca à descolonização do tema e à reorganização coletiva do cuidar, transformando-o de fardo individual em um direito universal e gesto de resistência.
Cândida Monte: É artista das artes do corpo, diretora, curadora e produtora cultural, graduada em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Desde 2004, é sócia-administradora da produtora Expressão Criação e Produção Cultural e atualmente da Dimenti Produções Culturais, atuando na criação, produção, gestão e circulação de projetos nas áreas da dança contemporânea, performance e artes cênicas. É idealizadora e curadora do 20MINUTOS.MOV, programa de residências artísticas desenvolvido desde 2010 e contemplado por importantes programas de fomento, como Fundação Cultural de Curitiba, Funarte, Rumos Itaú Cultural, Secretaria de Cultura do Paraná e Ministério da Cultura. Integrou o coletivo Couve-Flor – minicomunidade artística mundial (2009-2012) e foi gestora do Espaço Cultural La Bamba (Curitiba, 2014-2017), dedicado à formação, residências e programação artística. Atua em projetos de criação, curadoria e mediação cultural em colaboração com diversos artistas e instituições. Atualmente colabora com Bernardo Stumpf (RJ-PR), coletivo NÓ movimento em rede e Milla Jung, ambos de Curitiba. É professora em certificação da Klein Technique™ pela Susan Klein School of Dance and Movement (EUA) desde 2023 e reside entre Salvador e Curitiba.
Milla Jung: É artista visual, pesquisadora e curadora, que investiga questões sobre imagem e esfera pública a partir da relação entre práticas artísticas, políticas da imagem e performance. Tem doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e mestrado pelo Centro de Artes, Design e Moda da Universidade do Estado de Santa Catarina (CEART/UDESC), ambos no Programa de Artes Visuais. Entre seus trabalhos recentes, estão júri do 67º Salão Paranaense de Arte Contemporânea e do 17º Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte, exposições individuais e coletivas em Curitiba (Museo Oscar Niemeyer, Museu Paranaense e MAC), Brasília (Museu Nacional da República), Madrid (Núcleo Contemporâneo), São Paulo (Atelier 397) e Florianópolis (11º Salão Victor Meirelles), prêmios (“Trajetória em Artes Visuais”, “Outras Palavras” e “XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia”) e faz parte do Museu Oscar Niemeyer (PR), do MAC (PR), do Museu Fotokunst (Dinamarca), do Museu da Fotografia, Sesc/Paraná e da Coleção Fnac de Fotografia.